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Eu escrevi aqui, lá pelo começo do ano, que este ano seria marcado por coisas inéditas. Ou seja, eu faria e aconteceriam coisas comigo que nunca havia feito/acontecido.

 

E é verdade. Aliás, a verdade me persegue e esta não é inédita.

 

Não sei se eu já contei aqui que uma água-viva me queimou. Pois é. Há vinte e tantos anos assídua frequentadora do mar e nunca uma água-viva tinha me dado um “oi”. E eis que uma abelha me picou.

 

Então, também em vinte e poucos anos nunca havia sido picada por uma abelha. Fiquei com o braço super inchado, doendo e ardendo. Não sabia o que fazer/passar. Coloquei gelo, o que aliviava por algum tempo. Dei aulas (muitas aulas) com o braço coçando loucamente e sem poder fazer nada. Passei mais de uma semana assim, pois me recusei a ir ao médico (a chance de levar uma injeção era muito grande e além de não gostar eu estava sozinha). Aí, numa tarde de desespero de tanta dor, inchaço e coceira, resolvi passar vinagre (é, esta coisa que não serve pra nada na cozinha). E resolveu! Vinagre realmente alivia a coceira e a dor. A mancha vermelha enorme que tinha tomado meu braço (e no meio uma bola vermelha dura e dolorida) foi diminuindo. Descobri, então, que vinagre serve para três coisas: para picada de abelha, queimadura de água-viva e tirar mofo dos armários. Vivendo e aprendendo. Hoje ainda tenho uma mancha um pouco mais escura que a pele onde ficou inchado – mas de marcas no corpo é que eu vivo.

 

Sobre viver e aprender é que eu venho escrever hoje.

 

Além das coisas inéditas que acontecerão neste ano, há as repetições. Aquelas coisas que já conheço a muito tempo.

E elas volta e meia, voltam.

 

Eu falei sobre a verdade ali em cima, e lhes digo que da verdade ninguém gosta. A falsidade, por outro lado, é abraçada por muitos.

O tempo tem sido escasso, fato. Só comparar a quantidade de posts ano passado e esse ano. Mas este ano apresentou-se como uma reedição de velhos temores dos outros em relação a mim.

 

Há certas pessoas, colegas de trabalho, namoradas de conhecidos/amigos, “superiores”, parentes e afins que se sentem ameaçadas por mim. Vejam só, eu sou uma ameaça.

E de tanta confusão, dor de cabeça e encheção de saco que eu já tive este ano por esse motivo eu resolvi escrever este texto. Hoje amanheci (depois de um dia turbulento) pensando qual o motivo, afinal, para essas pessoas se sentirem assim? Porque eu não me acho uma ameaça à namorada de ninguém, nem a nenhum colega, muito menos aos meus “superiores”. Não sou do tipo que tenta subir às custas dos outros, não invento picuínhas, não dou em cima de homem comprometido (não mais, ok?), não sou falsa, não faço nada escondido, não sou puxa-saco. Formulei mentalmente esta lista e pensei cá comigo: peraí, a lista só se refere ao que eu não sou. Mas então o que eu sou que ameaça tanto as pessoas? A primeira resposta (com aquele carregado sotaque paranaense) foi “ah, pára, né”. Ou seja, eu não sou nada que ameace as pessoas.

 

Ou sou?

 

E aí fiquei analisando os fatos das últimas semanas (e alguns dos últimos meses). Em menos de uma semana fiquei com o estômago literalmente revirado ao ter dois desagradáveis imbróglios nos dois trabalhos que tenho (ou tinha). Os dois casos aconteceram por intermédio de pessoas falsas e incompetentes que não querem minha presença por perto. Vejam só, em nenhum momento eu briguei com ninguém, nem falei por trás nem coisas do tipo que pudessem levar a isso. Eu ali, fazendo meu trabalho zelosamente, calma (aliás, sempre comentam isso nos meus trabalhos), prestativa, sempre pronta a ouvir e ajudar. Sei ser profissional. Além, é claro de tremendamente brincalhona e de bom humor (não tolero ir trabalhar de mal humor). E? E? E? Levei na cabeça.

 

O motivo?

 

Pessoas foram falar isso ou aquilo. Pessoas disseram que eu disse ou fiz isso ou aquilo. Pessoas, pessoas… eu sempre disse que o mundo seria perfeito, se não existissem pessoas nele. Simples assim.

E essas pessoas falam para outras pessoas. Hum… interessante. Porque pra mim ninguém veio falar nada.

Aí surge a primeira pista. Falsidade. Num dos meus trabalhos aprendi uma coisa este ano (mais uma para as inéditas): falsidade se paga com falsidade. Acabei levemente entrando nisso para tornar minha presença suportável diante de certas criaturas. Mas falei para uma pessoa muito querida, que me disse que eu demorei pra aprender isso (ele um menino de uns quinze anos, vejam só!), que eu aprendi mas não vou praticar. Não cabe em mim a falsidade. Nem o disse-me-disse. Eu digo na cara o que tenho que dizer. Não esperem menos de mim. Aqui eu falei só do trabalho, mas isso é assim também nos estudos. Não fui a primeira colocada na seleção, não sou puxa-saco-bolsista-faz-tudo, falto aula e às vezes não leio um texto ou outro. Mas mesmo assim as poucas conversas que se dignam a ter comigo são permeadas de frases desconfiadas e de testes (será que ela é inteligente mesmo ou só aparenta ser?!). Não preciso provar nada pra ninguém, meus queridos. Aliás, provas, o que são provas? Eu com meus alunos nem faço provas (sou uma professora adorável) e tenho que fazer prova no mestrado (infelizmente o professor precisa disso para confirmar certas coisas, que tem aluno que está lá para nada).

 

Então eles me temem?

 

Eles me temem porque sou contra as mentiras, a falsidade, a incompetência deles, o mal humor perene de alguns falsos profissionais. Porque eu falo na cara o que tenho para falar (isso faz os incompetentes e mentirosos tremerem nas bases). Aliás, nunca minta pra mim. Porque antes de você terminar a frase eu já terei descoberto o tamanho da mentira. E posso até te dar detalhes. Esse é um dom que eu tenho. A falsidade pode até ser ensinada, há alunos que já agem conforme esta praga só por vê-la sendo praticada dentro de uma escola e por ver as “vantagens” que ela pode trazer. O caráter! Ah! O caráter! Também tenho. E para os que não o tem o temor é ainda mais pungente. Porque, meus queridos, caráter, ou se tem, ou não se tem. Nem o passar do tempo muda isso. Ah, e tem aquilo que eu sou moderna (demais), liberal (demais). Isso já diziam meus amigos e professores do ensino médio. Então as caretas e os caretas me temem por isso, porque eu assumo o que faço e penso diferente dessa gente quadradinha. Vai ver minhas atitudes profissionais, apaixonadas e afins joguem na cara destes despeitados e despeitadas o relacionamento falido que eles tentam fazer sobreviver, a pobreza intelectual do que eles tentam produzir. Vai ver é isso. E aí eu começo a entender tudo!

 

Quando é espelho, serve. Quando é realidade, desgosta.

 

Não gostam, então, de ser confrontados com alguém diferente deles, com capacidades, bom humor, paixão. Porque, vamos e venhamos, é preciso paixão nesta vida em tudo! E não como a paixão biológica que dura seus dois anos. Temem que eu roube os corações dos outros? Ah, mal me conhecem! Tenho um coração que me dá tantas alegrias e trabalho que nem me passa pela cabeça ter outro! Temem que eu me destaque numa equipe? Que eu seja a favorita de alguns alunos (por favor, unanimidade nunca!)? Temem o que mais mesmo? Que a minhfa felicidade e jogo de cintura com a vida escancare a infelicidade e a fraqueza deles? Aí eu realmente entendo todas as sacanagens que fazem comigo, todo o leva-e-traz, todas as fofocas, a falsidade, a grosseria. São pobres infelizes, incapazes, incompetentes e mal-amados. Como eu disse, não é novidade nenhuma este tipo de situação na minha vida, por isso já tenho uma noção do que acontece. E por isso já aprendi a dar a volta por cima rapidinho. Aliás, nesses casos nem volta por cima mais dou porque não caio. É, as cicatrizes já foram profundas o suficiente pra eu nem me cortar ou me deixar cair por essas bobagens.

 

Mas digo uma coisa a quem leva a sério essa gentinha: me perder é o pior que você pode fazer. E não é porque eu posso ser vingativa ou coisa assim porque realmente não sou. Mas porque eu realmente me empenho em ajudar e colaborar, em fazer um trabalho bem feito e porque sou uma amiga sem igual (esses dias ainda recebi uma mensagem, por ter feito algo por uma amiga, que dizia “a amiga mais amiga de todas!” – e realmente sou). Faço de tudo pelos meus amigos. E não vou escrever “amigos de verdade”, pois não existe outro tipo de amigo que não seja de verdade; ou é amigo, ou não é.

 

Falar abetamente das coisas, como faço aqui no blog inclusive, gera revolta e desperta este sentimento de ameaça nas pessoas. Não colaborar com os planinhos bobos delas, não se mostrar conivente e cúmplice com a falta de ética que serpenteia em alguns lugares, não ficar quieta: tudo isso faz com que o mundinho hipócrita, falso e sem caráter delas pare de girar. E as pessoas precisam que o mundo gire. Quando ele pára elas percebem que estão num relacionamento falido, estão maceradas pelo tempo no mesmo ambiente e emprego, são incompetentes e vivem mentiras. E isso, meus queridos, é choque demais para elas aguentarem – pois normalmente já são pessoas fracas, por isso agem assim.

 

Temam… continuem temendo. Porque definitivamente eu não pretendo entrar no mundo de vocês. Já experimentei muita coisa nessa vida, e isso que vocês reproduzem só faz mal às pessoas, inclusive a vocês. Eu sei porque já senti na pele. Não me cabe, nesta vida, fazer mal a quem quer que seja.

 

E como disse um excelente professor do Jornalismo da UFSC (de quem eu tive o prazer de ser aluna) no Twitter esses dias (bem durante a minha turbulência), “as ideologias é que são vãs, não a filosofia”.

 

Essas ideologias do mal reproduzidas afú por vocês é que são vãs. Não eu.

 

E nem me darei ao trabalho de lembrar Maquiavel. Sobre os que me amam há problemas ainda maiores.

 

Temam. Porque, infelizmente, é só o que resta para vocês.

 

 

Meus eus

 

Eu poderia pensar mais nos outros. Tentar entender que eles têm sentimentos e que sofrem. E que podem sofrer por mim.

 

Mas aí não seria eu.

 

Eu poderia ser mais compreensiva, mais carinhosa, mais sentimental.

 

Aí também não seria eu.

 

Eu poderia sossegar o facho, como dizia minha avó, tomar rumo na vida, vergonha na cara, me olhar no espelho e dizer “chega! pára com tudo isso.”

 

Ainda assim, não seria eu.

 

Eu poderia fazer como todo mundo, ter só uma casa, um endereço, uma profissão, um emprego, uma família, um destino.

 

Aí eu seria só um eu, dentre tantos eus que há em mim.

 

Eu poderia ser simpática, amável, popular, diplomática.

 

Aí ninguém acreditaria que era eu.

 

Eu poderia concordar mais, desconfiar menos (pois desconfio até da minha própria sombra, como sempre disse meu pai – e que as caminhadas noturnas dos últimos dias confirma), falar menos, ouvir mais, escrever menos, ler menos, ficar mais tempo no mesmo lugar.

 

Mas aí nem eu me reconheceria.

 

Eu poderia tentar conciliar mais todos os meus eus que se entendem tão bem.

 

Mas aí eles não seriam eles.

 

 

Do Eu

 

 

Eu posso falar, falar e falar, escrever ainda mais. Mas nada me define melhor do que uma palavra: observadora.

 

E a única coisa que me move é a paixão.

 

 

 

Deixo o carrinho de compras perto dos congelados e caminho até o pinhão. Há um pote para recolher e colocar no saco plástico, mas reparo que eles estão bem novos e, por isso, com muitas “cascas” que saem junto da pinha. Começo a catar com a mão, um por um, e reparo que há uma mulher fazendo o mesmo.

 

Naqueles dias eu experimentava e mostrava para as visitas como o povo manézinho é receptivo. Ao sairmos da missa uma senhora bem velhinha que mora na minha rua havia puxado conversa (ela não se conforma que ninguém mais da nossa rua, em frente à Igreja, vá à missa). Ao sairmos do Curiódromo, num domingo, um homem puxa conversa e diz que no sábado é que é bom ir porque ontem havia mais de trezentos pássaros lá. O manézinho é conversador, é solícito, é amigo.

 

A moça catando pinhão, como não podia deixar de ser, puxa conversa. “bom um pinhão com esse frio, né?” Era mais uma constatação do que uma pergunta. É Outono, mas uma onda de frio abateu nossas gargantas. Logo pra mim ela diz isso? Estou comendo freneticamente pinhão desde final de março. Sim, sou doente por pinhão, sou serrana, faço pinhão assado na chapa e tenho ataques de prazer.

 

E ela continua “mas tem que escolher, tá cheio de cascas”. Ao que eu comento que é o que vem junto na pinha, porque ele está novinho. Logo chega o marido e dois filhos, um casal.

 

Um sorriso de canto de boca me pega desprevinida. Vejo ali uma cena linda: mãe, pai e filhos num domingo de manhã catando pinhão, juntos, conversando “quer pegar um pouco de carne moída pra fazer panqueca, amor?” diz ela, “filha, pegou o refrigerante que você queria?” dia o pai, o menino come uma pipoca bilu, a menina bebe alguma coisa, “ó, mãe, esse tá bonito!” diz o filho ao pegar um pinhão lustroso, enorme, novinho.

 

Eu ali catando meus pinhões e acompanhando a cena começo a refletir sobre minhas péssimas considerações acerca do casamento, da tal constituição de família e tal. Penso: não devem ser todas tão ruins. Talvez a tolerância, talvez o amor profundo, talvez algumas coisas consigam fazer um casamento, um relacionamento, durar muitos e muitos anos em harmonia. Talvez o problema seja eu. Talvez eu não seja capaz de nada disso, porque, veja só, afinal essas coisas devem existir para algumas pessoas. Por que diacho eu sempre só vejo o lado ruim das coisas? Quer coisa mais linda que esta cena? Uma família unida num domingo escolhendo pinhão e fazendo compras? E eu aqui na minha vidinha…

 

Foram alguns minutos (comprei alguns quilos de pinhão). Eis que minhas reflexões são quebradas pela frase do pai “dá pipoca pra ela”. Assim, sem mais nem menos. Parece que a menina, do outro lado, ao lado do pai, havia falado alguma coisa. O menino começa “ela não me deu água”. “ela não me deu água” “ela não me deu água” “ela não me deu água” e o pai retruca “taqui a água, toma, agora dá pipoca pra ela”. O menino pára a ladainha da água para responder “agora? agora não quero”. A irmã não deu água, queria pipoca, ele não dá pipoca porque ela não deu água; na contrapartida a irmã, agora por interesse, dá a água; ele nega porque percebe o jogo. Situação óbvia e justa. Foi-se a harmonia.

 

“parem vocês dois” diz a mãe com uma cara cansada, já não há o amor pensando nas panquecas, já não há a alegria da escolha dos pinhões. “vão ficar de castigo os dois”. “eu fiquei de castigo já, mãe, até ontem, lembra?” diz o menino justo e invencível. “vão ficar uma semana sem poder sair” diz a mãe, “sim, só ontem que você foi na casa do Felipe, ficou uma semana… não, mais de uma semana” relembra a mãe agendadora. A menina só fala em voz baixa ao lado do pai, como se ele fosse seu mais fiel tradutor.

 

A cena se desfez… acusações de ambos os lados, erros elevados ao infinito de pais que acham que fazem justiça e apenas colocam-se em lados opostos… a miséria da vida a dois, da familiaridade, do convívio exposto transbordando sobre os tão lindos e novos pinhões.

 

Uma parte de mim sorri triunfante: serviu para refletir, mas quem sabe há situações que só possuem o lado ruim mesmo. Eu pego meu saco cheio de pinhões, antecipo o prazer que será devorá-los e me retiro com um estalo de esquecimento à cena tão grotesca posto que é comum, e tão comum posto que é grotesca.

 

Não preciso que me esfreguem as misérias alheias na cara, nem nos tão deliciosos pinhões.

 

 

Vejo-as por todos os lugares para onde olho…

 

o quê?

 

palavras transformadas em imagens.

Quando a gente acha que já viu tudo… frase bem comum de se ouvir, né?

Pois é.

Lá pelo final do ano passado, fez sucesso na internet a divulgação de alguma cidade do Estado de São Paulo que havia sancionado uma lei proibindo o que vulgarmente se chama de “Dj do busão”, ou seja, o não-cidadão que coloca seu celular ou algo semelhante para tocar música sem fone de ouvido dentro do ônibus. Uma certa quantidade de pessoas, que visivelmente se sente incomodada com esta atitude, vibrou e divulgou dizendo que na sua cidade isto também deveria ser feito.

Eis que algumas outras cidades seguiram o tal exemplo.

Vale lembrar que nos ônibus de viagem há um aviso de que é proibido qualquer tipo de som no seu interior desde muito tempo.

E Florianópolis, a cidade da moda e dos modismos, aderiu recentemente ao sucesso e também sancionou uma lei semelhante. Segundo ela, não pode mais (se é que algum dia pôde) ser reproduzido qualquer tipo de som no interior dos ônibus municipais, quem deve fiscalizar isso são os motoristas e cobradores, os quais, sabemos, são os responsáveis pelo trajeto, pela segurança e afins dentro do ônibus. Afinal, não há como ter um fiscal dentro de cada veículo. Contudo, a tal lei não prevê nenhuma sanção grave, apenas diz que se algum passageiro não obedecê-la deverá ser colocado para fora do ônibus.

Eu, como boa cidadã que sou e nem um pouco fã que sou de Dj de qualquer tipo, deveria exultar com tal notícia. E não foi o que aconteceu. Bem pelo contrário.

Então sancionaram mais uma lei? Mais uma lei que precisa dizer às pessoas o que elas devem (ou não) fazer? Então lá vai a prefeitura, a câmara ou sei lá o que dizer ao cidadão e ao não-cidadão como se comportar, ou, no mínimo, que é necessário respeitar os limites: os seus e os dos outros? É isso mesmo?

A decepção foi enorme. Ainda mais desanimador é ver as pessoas discutindo esta lei. Se esse ou aquele deve fiscalizar e blá blá blá. No mesmo dia que vi a notícia presenciei o motorista do ônibus escolar colocar bem alto uma estação de rádio qualquer quando íamos para a escola à noite. As músicas fugiam completamente ao meu mais expansivo gosto musical. Este motorista não é, como motorista, dos melhores – tanto em comportamento quanto na direção. Ao contrário, justamente, do outro motorista da noite que não permite de forma alguma que os alunos ouçam suas músicas sem fone de ouvido dentro do ônibus. Ontem mesmo, ao entrar e ouvir um aluno sentado no fundo do ônibus ouvindo um funk no volume mais alto, ele dirigiu-se até ele e solicitou que desligasse. Enquanto isso não foi feito o ônibus não seguiu viagem.

O primeiro comentário irônico que me ocorreu foi que era uma piada dizer que motoristas e cobradores deveriam cobrar isso dos passageiros, pois perdi a conta de quantas vezes ouvi os sucessos vindos do Dj cobrador com seus mp3/4/5/6/7/8 (etc), celulares e dos motoristas também com seus aparelhinhos eletrônicos ou do próprio ônibus. Um fim de semana antes dessa notícia um motorista do Rio Tavares Direto ligou a rádio para ir do TIRIO ao TICEN e o caminho todo foi ao embalo de algo que chamaram de sertanejo universitário. Minha ignorância nessa área é enorme.

São tantas as contradições que cansam. Porém, o que é mais desprezível é ainda vivermos num mundo – e principalmente neste país paternalistazinho – no qual as leis precisam (será mesmo que precisam?) ser criadas para dar aquela palmadinha nas costas do não-cidadão e dizer, num sussurro “faz isso não, camarada”.

Sei que para quem acompanha o blog posso parecer contraditória, pois a alguns post atrás eu defendia uma lei que proibisse o cigarro e a bebida nas praias. Pois é, posso mudar de opinião. Como posso ter visões diferentes de problemas semelhantes.

Fui a favor da lei que proibiu fumar em locais públicos porque particularmente detesto cigarro. Sei que hoje ela é só mais uma lei – vide os terminais de ônibus de Florianópolis, onde as pessoas vão até a ponta (ainda debaixo do teto e em lugar público) para fumar e acham que estão “respeitando” a placa. Inclusive funcionários dos terminais fazem isso. Mesmo com esta lei em vigor já presenciei inúmeros casos de desrespeito. Um deles na rodoviária de Joinville, um cara fumando ao lado da placa, no meio da plataforma. Fui até o fiscal e ele disse que infelizmente isso ainda acontecia com frequência e, como era de se esperar, não fez absolutamente nada.

Ninguém faz nada. Esse é o povo brasileiro.

E aí você entra em sala de aula e tem que conseguir explicar que, por exemplo, não se pode ser “a favor” ou “contra” o homossexualismo.

Eu queria crer num mundo que não precisasse de leis para dizer o óbvio. Leis que determinam o que podemos ou não fazer sem, necessariamente, dizer o motivo nem como aplicá-las. Temos leis demais. E o povo se acostumou a isso, a ver se tem uma placa, uma lei, uma restrição que diga: “pode”, “não pode”. A tutela que não permite o povo sair da minoridade – como diria o querido Kant (é, acho que fiz as pazes com ele) – gangrena a nossa sociedade. O governo mantém todos sob sua tutela não só para controlá-los, mas para enterrá-los na sua própria ignorância.

Estão tão enterrados que você não vê o povo mesmo reclamar desse tipo de coisa. Reclamam os chatos, os intelectuais, os pseudo um monte de coisa, os metidinhos e afins. O povo curte a música tocada pelo Dj do busão. O povo não se incomoda com a fumaça do cigarro, isso é coisa de gente fresca e chata como eu.

Não seria preciso lei nem que um cobrador peça para colocar os fones se a população realmente reprimisse as atitudes do não-cidadão. Eu já nem dava muita bola para música nos ônibus, porque, né, haja tempo. Eu percebi isso com o advento (!) dos celulares com TV digital, era aquele povo no busão, nos pontos de ônibus, em qualquer lugar, assistindo o Jornal Nacional e a novela das oito. Nesse início eu até me irritava (TV, de um modo geral, tende a me irritar). Depois vieram as músicas (o que, por pior que seja, ainda é menos pior do que TV). E se está longe (no fundão, por exemplo, visto que eu gosto de sentar na frente – atestado de velha chata) eu nem dou bola. Se o barulho está alto e por perto, dou aquela olhada reprovadora com um meneio negativo de cabeça. Eu reprovo. Eu já pedi pra desligar. Pode fazer escândalo, pode ficar fazendo careta. Não me importa. Eu procuro ser cidadã. Mas somos tão poucos que eu realmente não acredito na eficiência nem no caráter generalizador dessa reprovação.

E aí você entra em sala e quer discutir assuntos graves como um de menor que dirige sem carteira alcoolizado e mata com alguns alunos que defendem a idade de dezesseis anos para tirar carteira de motorista.

E, sim, a educação está aí gritante em todos estes assuntos. Ah, a Política também, porque meu coração Liberal não me permite assistir a esse paternalismo tutelar calada.

E vou aqui esperar uma lei que proíba a idiota da vizinha de lavar a calçada e molhar a rua dia sim, dia não. Uma outra que proíba as pessoas de conversarem – pessoalmente ou pelo celular – dentro do ônibus de viagem quando eu quero dormir. Uma outra também que exija que montadores de móveis trabalhem aos sábados. Uma ainda que não permita as folhas do pé de maracujá de caírem na varanda. Simples assim. E a gente nem viu tudo.

 

Na semana passada, numa aula discutíamos a memória e a lembrança. A professora perguntou qual seria a cristalizada e qual a fluida. A memória é a cristalizada, fixa, dura. A lembrança é a fluida, a intangível. Quando eu havia me deparado com a questão no texto imaginei uma fotografia de alguém: a fotografia é o instante, a memória fixa, cristalizada, palpável da pessoa; as lembranças são aquilo que eu sinto toda vez que olho para a fotografia, os momentos que passei com aquela pessoa, a saudade que eu sinto, a reconstituição do momento no qual a fotografia foi tirada.

 

E eis que a memória e a lembrança pregaram-me uma peça.

 

Participei novamente este ano da Maratona Fotográfica de Florianópolis. Aí já se vão alguns anos participando. Já ganhei por foto, não pelo conjunto, uma ou outra vez. Não participo pela competição. Não sou, de modo algum, competitiva.

 

Participo, enfim, pela maravilha de poder redescobrir a Ilha a cada ano por uns dois dias. As surpresas que se encontram nos meus lugares tão conhecidos é que valem a pena.

 

Este ano não foi diferente. Tive boas e deliciosas surpresas, me senti transportada para o século XVIII, conheci pessoas especiais, etc.. Mas sobre a memória e a lembrança tive um momento singular e até certo ponto indescritível.

 

Digamos que as lembranças não possam ser ditas. Podemos até tentar descrevê-las e quem tomá-las para si poderá transformá-las em memória.

 

Andando pelo Ribeirão passei por uma rua que não conhecia. Eis que surge uma placa sobre o tal picolé da dona Nair Falcão (a lembrança me embota agora e não sei se é Nair mesmo o nome) que há cinquenta anos delicia o Ribeirão, a receita legítima. Fiquei intrigada, obviamente. Havíamos almoçado e um picolé num dia ensolarado pareceu tentador, além da curiosidade (minha) de conhecer mais um personagem da Ilha. Lá fui eu.

 

Uma senhora bem senhorinha atende e diz que tem de coco ou de chocolate. Pedimos dois de cada, eu escolhi coco. Dois reais cada um. No meio tempo de catar dinheiro para a senhorinha não precisar dar troco, pego o picolé e já experimento. Fico calada e parada. Minha irmã também abre o dela (de chocolate) e experimenta. Em seguida ela me olha. Sim, eu estava ali parada, sem palavras. As lembranças podem ser indizíveis. Mas minha irmã sempre consegue dizer tudo e solta “é o da vó!”. Talvez não tanto exclamação mas mais constatação. Era essa a constatação que meu paladar havia enviado para minha lembrança. Eis que aquele picolé, memória cristalizada de uma receita que eu conheço desde que me entendo por gente, revirou o meu mundo das lembranças. E eu não pensava, não dizia, apenas sentia e lembrava. A exatidão do sabor era chocante. Minha avó foi e sempre será única. Tudo o que eu lembro dela também. E aquela senhorinha que, apesar de ser uma velhinha, não lembrava em nada minha avó fazia um picolé que está materializado na minha memória, que é um pedaço da minha lembrança. Não senti regozijo, nem felicidade. Algum tipo de angústia talvez.

 

Fiquei ali, quieta, sem conseguir entender, chupando aquele picolé que pra mim sempre foi o melhor. Eu mesma já fiz esta receita algumas vezes, mas já faz algum tempo que não tenho feito. Era algo que não deveria ser tão desestruturador. Mas me senti perdida. Tentei encontrar uma explicação lógica: se eu perguntasse a idade da senhorinha, poderia comparar com a da minha avó e ver se seria, então, uma receita difundida na época, muito antes do surto de freezers kibon. Aí percebi que essa tentativa de explicar pelo conhecimento, pela razão, não fazia o menor sentido diante do que eu estava sentindo. Parei na sombra e terminei meu picolé ao lado da minha mãe, mais emotiva que eu.

 

A memória prega peças. A lembrança não só prega peças como nos deixa desconcertado diante da memória, daquilo que cristalizou e que mesmo assim talvez não seja passível de ser dita. Uma receita anotada num papel pode constituir-se memória, mas será apenas uma receita num pedaço de papel.

 

Claro que fiquei esperando “entender” (na verdade o termo não cabe aqui porque seria mais um entender sem a lógica) o que tudo isso significava. Estou num momento “sinais” e acredito muito nisso. Acredito mais do que entendo. Isso é fundamental. Não sei se entendi. Só sei que no mesmo momento a aula sobre memória e lembrança fez ainda mais sentido. Eu conseguia, afinal, explicar o fato. Mas foi só.

 

Enfim, e estiver passando pelo Ribeirão, desça a rua da Igreja Nossa Senhora da Lapa à direita. É tudo o que eu posso compartilhar.

 

 

Cena 1: Garrafa de vinho na pia. Pedaços de cortiça da rolha espalhados. Um saca rolha ao lado. Olhos fechados, mãos apoiadas na beirada da pia. Toca Nelson Gonçalves. A vela acesa.

E eu ali pensava nas questões de gênero: nunca senti tanto o machismo quanto naquela hora. Garrafas feitas para só serem abertas por homens. E eu não encontrava de jeito nenhum o meu saca rolha velho de guerra. Talvez tenha se perdido em alguma mudança. Talvez não. Ele era meu companheiro, sempre bebi sozinha e conseguia abrir as garrafas. E ali era a imagem do fracaso; mas fracasso só diante da garrafa. Enfim, eu não preciso do álcool. Enfim, eu não preciso de nada, nem de ninguém. E as coisas se esclarecem. Não há mais o “mudanças vão acontecer”; elas já aconteceram. Sim, já. E eu sou corajosa o suficiente, como sempre fui, para aceitá-las, acatá-las e colocá-las em prática. Prisões, censuras, cobranças só de quem não me conhece; e, enfim, ninguém realmente me conhece. Fácil compreender. No entanto, não há tempo pra perder com isso. E resolvi ouvir um CD para lembrar conquistas inéditas do passado. Pensei até em escrever sobre o passado, um passado bom, doce, vívido, vivido. O que me interessa e importa, hoje, é a loucura. E no amor não há loucura, é sanidade; só há certeza, segurança, exatidão. Perdi a exatidão numa curva do Canto da Lagoa. A segurança na trilha do Saquinho. E todas as certezas à beira-mar. Eu quero a loucura. E ela me quer, me chama. Eu não quero ninguém nem nada que me chame à sanidade, que me tira dos filmes do Buñuel. Que desligue meu aparelho de som. Não quero ninguém ao lado de quem eu não possa dançar. Eu assumi os desafios e só me vejo neles sozinha. Não cometerei o mesmo erro da última vez, eu aprendo com eles. Sou esperta o suficiente pra muita coisa. E a garrafa ficou ali despedaçada. E as músicas se sucederam. Fiz a trilha para os outros. Fiz a minha trilha que estava lá empoeirada, travada, esquecida. Eu quero a loucura de viver. Se já deixei de tê-la? Sim, talvez brevemente. Mas meu alarme andou disparado desde então. E eu não ouvia mais nada direito, até entender que era ele. Mas eu sou uma boa ouvinte. Eu quero a loucura, eu quero amigos – sim, meus bons amigos e novos amigos. Eu quero chegar em casa e não ter certeza se o que aconteceu realmente aconteceu, se eu vi o que eu vi, quero não saber o que eu sinto. Quem não quer nada disso, já é infeliz por opção. Eu escolho a loucura. Sim, eu faço coisas demais, eu corro demais, eu viajo (literalmente e não, segundo meus alunso inclusive) demais, eu durmo de menos – “balanceada” é uma coisa que não entra na minha vida. Nada depende de nada e relativismo de ser civilizado no mundo moderno são balelas. Delas também não preciso. Passagem comprada. Mala para arrumar amanhã. Ter certeza de onde acordará não serve pra mim. Também não me servem as grosserias, as cabeças duras, as ignorâncias. Não me serve a arrogância, que fique claro. Construo personagens, escrevo histórias e ainda tenho que escrevê-las quando amadurecem na minha cabeça. O vinho não foi bebido hoje, amanhã tomarei outro. Quem sabe eu compre um saca-rolha decente, quem sabe eu esqueça. Quem sabe eu consiga resolver meia dúzia de coisas pendentes esta semana, talvez não. Quem sabe eu dê conta de ler tudo o que tenho para ler, ou não. Quem sabe eu esteja sentindo falta das minhas meninas. Quem sabe eu ame ficar sozinha – e sempre tenha amado, e que o meu retiro de surpresa reeditado numa versão “ano inteiro” tenha me revivido isso de forma monumental. E vai que por tudo isso, ou quase tudo, eu não entenda crianças de dezesseis anos sofrendo por amor. E já dizia o Renato Russo, se dói não é amor. E se não dói, nem tira do sério, nem é loucura, então também não é amor. A dor é sempre opcional. A burrice também. E eu tenho que parar com a mania de ter pena das pessoas – vou anotar no meu quadro de recados. E muita coisa só existe na minha cabeça – e eu liguei pra minha Loira e disse pra ela me dizer isso, cara a cara, porque eu simplesmente precisava e só ela poderia fazer isso por mim. Não ganho nem perco, só me livro de problemas. Problemas não tenho, nem quero, muito menos os dos outros. E eu quero mesmo é só a loucura. Se não for pra isso, nem falem comigo.

 

 

 

Me sentia como um personagem do Buñuel. Passei dias me sentindo assim.

 

Como escrevi no post anterior, não cabe aqui relatar os fatos. No surreal, os fatos é o que menos importa.

 

O que eu posso relatar aqui é o meu sorriso sacana a tudo aquilo que “acontecia”. Me senti muito fdp.

Senti e pensei demais. Demais. Demais.

Sentir é inerente ao surreal, entender não. Abri mão de entender qualquer coisa esse ano. Já não entendo o que sinto, nem o que penso. E vejo isso em relação a algumas pessoas, a alguns lugares.

 

Mas a vida dá voltas e voltas, mais do que as do Canto da Lagoa. Mas o Canto da Lagoa também é bem surreal. Aquelas frases e imagens surpreendem e não explicam, me convenceram ainda mais do surreal dos meus dias.

 

Se o surreal estava contribuindo com a minha felicidade… deve ter incomodado alguém, não é mesmo?

 

Tem um monte de gente que não sabe ser feliz. E, aliás, não pode suportar a felicidade alheia.

 

E eu cruzo meu caminho com essa gente, que de “gente” não tem quase nada.

 

Contato com as pessoas?!

 

Cai do meu mundo surreal… quebrei a parede da sala de jantar. Deixei meu personagem ao ouvir um distante e confuso “corta”!

 

Bem, conseguiram o que queriam. O que eles não esperavam é que eu tivesse tomado gosto pelo surreal, tivesse encarnado o personagem – provavelmente voltarei para lá.

 

 

Pessoas não me dão medo nem irão controlar a minha vida. Tirei hoje de folga do mundo, fiquei comigo mesma. Amanhã prometo atentar os ouvidos para o “gravando” que o Buñuel vai gritar de lá onde quer que ele esteja.

 

 

Pasmem

 

Discutir relacionamento, as famosas DRs, deveria ser proibido em lugares públicos. Aliás, deveria ser proibido em lugares públicos, na presença de outras pessoas além do casal e também na internet.

 

Coisa das mais desagradáveis é ser testemunha involuntária de uma choradeira, de um barraco, de uma discussãozinha qualquer de casal. Eu que já não gosto nem no meu “casal” esse tipo de coisa – e, sim, pasmem, evito a todo custo e consigo, felizmente – acho ainda mais indigesto ter que presenciar as picuinhas de pessoas que (normalmente) demonstram que estão infelizes juntas.

 

A infelicidade, a mesquinhez, a mente pequena, o ciúme inútil, a cobrança excessiva – tudo isso destrói e afasta. Discutir sobre essas coisas (e sob o efeito delas) é ainda mais devastador. Só não percebe quem não quer.

 

A intimidade de um casal deveria dizer respeito somente a ele, mas não é isso que eu vejo por aí. Vejo vidas expostas para os melhores amigos e amigas, para parentes próximos, para colegas de trabalho e até, pasmem, para os amantes. A partir do momento que uma intimidade torna-se pública, ela já evidenciou a impossibilidade da existência de um casal.

 

E eu, queridos, não preciso ouvir a sujeira da lavação de roupas de vocês. Tenho estado irritada com o saudosismo, mas principalmente não tenho tolerado ser vítima dos respingos do mal relacionamento dos outros.

 

Sei que às vezes as circunstâncias levam a uma discussão inesperada em algum lugar público (a ânsia por criticar o outro, apontar o dedo em riste jogando acusações nobres do presente mas sempre temperadas com as mágoas do passado) ou na frente de alguém. Porém, além desses lapsos, imperdoável é colocar a própria intimidade em pauta na internet. E, pasmem, eu já vi muito isso.

 

Casais que atiram contra si mesmos negações e culpas, relatam passo a passo da derrocada sentimental que vivem nas suas páginas pessoais na internet deveriam ser punidos severamente. Claro, não falo em mais alguma lei sem sentido que poderia ser feita pelos nossos nada nobres políticos. Deveria haver uma “etiqueta” com sanções. Assim, comportamentos em desacordo poderiam ser facilmente puníveis.

 

Viver em “casal” não é fácil na maior parte do tempo, mas se a pessoa escolheu isso para si, ela deveria enquadrar-se nas limitações da situação – e poupar meus ouvidos.

 

Sim, pasmem, tudo isso para dizer: poupem meus ouvidos (e, de certa forma, meus olhos)!

 

 

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